As cRIanÇaS vIvEM nO PrEseNTe

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Tenho dois filhos que se amam profundamente, mas vivem brigando cotidianamente.

E, como mãe, sinto-me chateada e triste, pois adoraria que eles não brigassem.  E fico eu brigando com eles para eles não brigarem (!) Mas resolvi por alguns momentos dar uma parada e observar um pouquinho como eles se relacionam. E, como eu esperava, aprendi mais um pouquinho.

Sim, eles brigam e continuo não considerando isso legal: converso, explico, tento ajudá-los a expressar seus sentimentos de outras formas. Mas eu percebi que, com ou sem minha intervenção, em aproximadamente 5 minutos eles mudam o foco de interesse e estão brincando juntos, amorosamente, dando risadas e correndo pela casa.

Para mim, como adulta, é bastante difícil de entender. Como o mais velho, que acabou de dizer que não iria ‘nunca mais’ emprestar o brinquedo para a irmãzinha, pois ela não quis devolvê-lo na hora que ele pediu… , pouco tempo depois está brincando de pega-pega com ela? Como a menor, depois de um choro gigante, pois o irmão acabou expressando sua raiva a empurrando pra trás, após poucos minutos, corre dele alegremente pela casa, em fuga de brincadeira?

Quase incompreensível.  Mas, como sou viciada em reflexão, pois aprendi que experiência se constrói a partir da reflexão sobre as vivências pessoais, coloquei-me o desafio de entender.

E cheguei à conclusão, óbvia, mas difícil de enxergar com muitas obviedades, que as crianças pequenas conseguem ir do chão à lua em 5 minutos, no universo dos sentimentos, porque vivem absolutamente no tempo presente. Não importa o que passou, nem o que virá amanhã, vivem o agora, com toda sua intensidade de emoções, vontades, desejos de aprender, de se mostrar, de mostrar como pensam, o que querem, o que desejam. Não foram tolhidas ainda pelo verniz social e pelo ‘tenho responsabilidades’, que faz os adultos viverem muito mais pré-ocupados com o que está por vir do que com o que vivem no momento. Têm muito pouco tempo de vida ainda, que leva o passado ser um conceito meio sem sentido e o futuro algo que não as impressiona tanto ainda.

Talvez por isso nos incomode tanto o comportamento infantil: vivemos em tempos diferentes – elas, no presente, nós, no futuro ou no passado (ansiedade e depressão, costumam ter relação com isso…). E muitos de nós adotam como missão de vida cercear e adaptar a criança ao ‘mundo’, torná-la bem-comportada, não questionadora, quietinha e, se possível, que não se note sua presença no mundo adulto: sua presença espontânea e impertinentemente no presente pode ser muito incômoda e de péssimo tom.

É uma pena que com o tempo os adultos conseguem muito bons resultados em sua missão: as crianças internas se perdem, ficam os focos no futuro ou no passado, o presente passa cada vez mais rápido e cada vez menos se tem tempo suficiente para realizarmos tudo o que precisamos. O prazer pela vida e a fascinação por aprender a cada momento diminui, a capacidade de brigar, se desculpar e novamente se amar quase se extingue… Quanto mais convivo com crianças, mais percebo o tanto que a natureza é sábia por nos fazer nascer pequeninos.

Já prestou atenção à sua criança hoje?